quarta-feira, 8 de março de 2017

Mulheres Negras e o Amor com Homens Brancos.
                                                                                            por Sandra Simões
Não sei bem porquê razão ( será a Primavera?)  decidi pesquisar sobre mulheres negras e o amor através da história.  Aludindo  ao universo subjetivo,  sensível, relatando os fatos, não emitindo necessariamente um julgamento. Fui em busca dos amores famosos, os  que estão nos livros, nos compêndios da Mitologia, da Música, da  Arte, e da  História e podem ser comprovados nos vestígios que permanecem até os dias atuais.
A primeira referência se encontra na Mitologia Grega, e não é  propriamente uma história de amor mas de afirmação da beleza da mulher negra. Trata-se de Cassiopéia,[1]  a mãe de Andrômeda. Andrômeda que foi salva por Perseu, no seu cavalo alado Pégasso, do rochedo onde estava amarrada como castigo á sua mãe que ousou vangloriar-se da própria beleza.
 Cassiopéia era etíope e, portanto, negra. Segundo Milton[2] , numa comparação:

 “De cor escura e bela 
Como a irmã do Príncipe Mêmnon 
Ou a estelar rainha da Etiópia[3] 
Punida ao atrever-se a comparar 
Com a das ninfas do mar sua beleza”.

Cassiopéia é chamada a "estelar rainha da Etiópia", porque, depois de morta, foi colocada entre as estrelas, formando a constelação que leva seu nome. Embora tivesse alcançado essa honra, as ninfas do mar, suas velhas inimigas, conseguiram que ela fosse colocada na parte do céu próxima ao pólo, onde, todas as noites, tem de passar metade do tempo com a cabeça para baixo, recebendo uma lição de humildade. Sobre a Constelação Cassiopeia consulte[4]o site.
Era também etíope, portanto negra, a Rainha de Sabá, que visitou  o Rei Salomão conforme a Biblia menciona.


As pesquisas no âmbito da música me levaram as histórias de amores de mulheres negras  cantadas nas óperas A Africana de Giacomo Meyerbeer (1791 – 1864) e  Aída de Giusepe Verdi.( 1813 —  1901)
A Africana foi estreada na Ópera de Paris em 28 de Abril de 1865.  A ação do libreto original escrita por  Eugène Scribe,  em 1857,  passar-se-ia entre África e Espanha, e  relata o romance  entre Vasco da Gama e a raínha-escrava, Sélika, que se suicida mastigando uma flor venenosa na partida do seu amor para suas viagens de conquistas.


A ópera  de quatro atos Aída, estreiou no Cairo em 24 de dezembro 1871, dois anos depois da inauguração do canal de Suez,  em 17 de novembro de 1869. Relata a história de Aída, princesa etíope, escrava no Egito, apaixonada por Radamés general egípcio. Radamés apesar de ser prometido a Amnéris, filha do Faraó está apaixonado por Aída. No final Radamés é condenado como traidor e Aída se esconde na tumba sendo enterrada viva com ele.


Dois grandes personagens da literatura universal, viveram romances com mulheres negras imortalizadas em suas obras. O escritor e dramaturgo inglês Willian  Shakespeare e o poeta francês Charles Baudelaire.

 William Shakespeare[5]  em torno de 1598,  descreve em seus  Sonetos  127-52  seu amor, ciúmes, suspeitas e acusações, por uma mulher negra, o que lhe causa desgosto, mas não sabe como resisti-la, apesar de não a considerar nem mesmo bela. Bem contraditórios deviam ser seus sentimentos em desacordo com a moral vigente na época, em pleno sec.XVI.
SONETO 127
Em tempos remotos, o negro não era belo,
Ou se fosse, assim não seria chamado;
Mas agora surge o herdeiro da negra beleza,
E o belo está imprecado de bastardia;
Desde que as mãos detêm o poder sobre a natureza,
Embelezando a feiura com o falso rosto da arte,
A doce beleza não tem nome, nem jardim sagrado,
Vive profanada, ou caiu em desgraça.
Os olhos de minha senhora são escuros como o corvo,
Tão belos são seus olhos, e sua tristeza tão comovente,
Que, mesmo sem ser bonita, ainda é bela,
Difamando a criação com falsa estima.
Eles se entristecem com a própria aflição,
Ao ouvirem não haver beleza como a dela.
JeanneDuval[6] (1820 1862) foi uma atriz e dançarina haitiana, musa e companheira do poeta e crítico de arte francês Charles Baudelaire. Eles se conheceram em 1842, no Haiti e ele a levou para Paris. Desde então, os dois mantiveram um  romance de vinte anos, viveram juntos, separando-se e  reconciliando-se muitas vezes.
A princípio, Baudelaire instala Duval no n.° 6 da rue de la Femme-sans-tête (rua da Mulher sem cabeça), atual rue Le Regrattier, nas proximidades do hôtel Pimodan, Quai d'Anjou, na Île Saint-Louis, onde ele mesmo morava.Este endereço existe até hoje.
Duval é considerada como a mulher que o poeta mais amou na vida, e a ela dedicou os poemas Le balcon, Parfum exotique, La chevelure, Sed non satiata, Le serpent qui danse e Une charogne. Baudelaire costumava chamá-la "a amante das amantes" ou sua "vênus negra". Acredita-se, dentro da visão predominante dos meados do século XIX, que, para ele, Duval simbolizava a beleza perigosa, a sensualidade e o mistério de uma negra, de acordo com o título de seu livro mais importante e censurado Flores do Mal.

No Brasil temos, entre muitos que devem haver neste país miscigenado, o romance histórico entre a escrava  Chica da Silva e o  contratador de diamantes Jõao Fernandes de Oliveira.
Francisca da Silva de Oliveira[7], ou simplesmente Chica da Silva ( 1732 - 15 de fevereiro de 1796 ), foi uma escrava, posteriormente alforriada, que viveu no Arraial do Tijuco, atual Diamantina, Minas Gerais, durante a segunda metade do século XVIII.
Manteve durante mais de quinze anos uma história de amor estável com o rico contratador dos diamantes João Fernandes de Oliveira gerando com ele treze filhos . Quando ele teve de voltar a Portugal deixou para ela grande herança, e levou consigo os quatro filhos homens do casal, que lá alcançaram importantes cargos .
Entre 1755 e 1770 João Fernandes e Chica da Silva habitaram a edificação existente no que hoje é a praça Lobo de Mesquita, no número 266, em Diamantina .(Explore O Street View) 
Essas histórias de amor são algumas entre tantas que devem existir, anônimas ou esquecidas. Menos famosas que as histórias de Romeu e Julieta, Penélope e Ulisses, Tristão e Isolda, Guinevere e Lancelot,  Dante e Beatriz, Bonnye e Clayde ou Shrek e Fiona,  mas  mostram que o amor ainda existe e é capaz de transpor as barreiras do preconceito e da ignorância.





[1] KURY, Mário da Gama. Dicionário de Mitologia Grega e Romana. São Paulo; Zahar, 2003. pág. 7( Fonte:'' O livro de ouro da mitologia'' - Thomas Bulfinch

[2] Tillyard, E. M. W. "Milton: 'L'Allegro' and 'Il Penseroso in The Miltonic Setting, Past and Present. Cambridge: Cambridge University Press, 1938

[3] A história da Etiópia está documentada como uma das mais antigas do mundo remonta ao reino de Sabá, atual Iemên do Sul. Desde aproximadamente o século IV a.C. os gregos chamavam de "Etiópia" a todos os países com população de raça negra.

[4] ''www.youtube.com/watch?v=7izavuZ4bxo9   (Video As Maravilha dos Ceus Estrelados)

[5]  MOURA, Vasco Graça. Os Sonetos Completos - William Shakespeare.São Paulo; Saraiva, 2009

Introdução aos Sonetos de Shakespeare contida na Edição Completa editada por David Bevigton, Sexta Edição.tresando.com/2012/06/06/introducao-aos-sonetos-de-shakespeare/Visivel em 25/09/205


[6] https://pt.wikipedia.org/wiki/Jeanne_Duval. http://baudelaire.litteratura.com/?rub=vie&srub=per&id=5#.Vgc8GNJViko Visualizada em 25/09/2015

[7] FURTADO,Júnia Ferreira. Chica da Silva e o Contratador de Diamantes - O Outro Lado do Mito. São Paulo;Companhia das Letras, 2009. 
www.youtube.com/watch?v=pZP-6IAKv74- casa de chica da silva

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

sexta-feira, 7 de agosto de 2015















Sulamita
Desenho a pastel seco
100x130
“Sou uma moça preta, mas linda, ó filhas de Jerusalém, como as tendas de Quedar, como os panos de tenda de Salomão.”
 Cântico dos cânticos
Salomão


domingo, 2 de agosto de 2015

Eu e a lua



No tempo em que eu andava nua,
Perfumada em sândalo, lírio e jasmim,
Me banhava num lago
e minha pele negra
brilhava a luz da lua,
Eu já era tua!

Dançava junto a fogueira,
Praticava rituais de sedução
Era a ti predestinada
por instinto e emoção!

Através de muitas eras,
 das cruzadas e da cavalaria,
mudaram os mitos,
 perderam-se as crenças
 Não mudou a certeza
 que eu te pertencia.

Hoje é diferente
uso outros perfumes,
aplico nos lábios batom,
vou ao shopping center
Mas é você que eu busco
dentre a multidão.

Sou teu legado ancestral.
meu corpo guarda o mesmo cheiro,
Ainda uivo nas noites de lua,
 E a cada dia te espero.
Nua!

domingo, 26 de julho de 2015

Sobre ver e Olhar

"A chama que me arde mora além dos olhos que tu tens"Lari Franchesquetto
Sobre Ver e Olhar
por Sandra Simões

Vivemos uma “ civilização das imagens” diferente de tempos anteriores do predomínio da voz e posteriormente da escrita. Falamos aqui das imagens do cotidiano, e não apenas das imagens artísticas.
 Em um mundo globalizado, massificado pelas imagens veiculadas pela mídia, as sensações entram por nossos olhos como coisa pronta, acabada. São imagens de fácil reconhecimento que induzem a uma leitura superficial,  impedem  o indivíduo de imaginar, de pensar o novo. A imaginação esvaziada e a  gratuidade dos sentidos produz angústia e alienação, hipertrofiando a razão. Sem imaginação não há emoção, os nervos não vibram, os sentidos se anulam frente as vivências e experiências cotidianas.
“A hipertrofia da razão, em detrimento da emoção conduz à violência e à alienação. A violência como única forma de fazer os nervos vibrarem. À alienação quando a vida não faz mais sentido.” Duarte Junior
Imaginação?
Mas para que imaginação?
 A imaginação propicia o simbolizar, atribuir outros sentidos à objetos e acontecimentos. Simbolizar  é o que diferencia o homem das outras espécies. A capacidade de simbolizar transforma a vida biológica em coisa qualitativamente diferente. Merleau-Ponty  denomina o comportamento humano como “ comportamento  simbólico”. O animal reage aos estímulos. O homem age em função dos significados que imprime à realidade
“ A imaginação é um dos  modos pelos quais a consciência apreende o mundo  e o elabora. Pela imaginação o ser humano organiza o mundo numa estrutura significativa. Projeta o que ainda não existe, o devir, o que poderá vir a ser.” Teixeira Coelho
As imagens são símbolos. São recheadas de significados, de significância existencial. E estão aí para serem  compreendidas em sua essência, decifradas além da aparência.
A profusão de imagens, principalmente as estereotipadas “ elimina não apenas todo o sentido,como as próprias imagens”. Um processo de inflação simbólica tornando  o olho cego à riqueza das nuances, à alteridade,  ao desconhecido, ao estranhamento. Imagens que por seu reconhecimento fácil se esvaziam de tudo que convoque o pensar. É a  superficialidade provocando o excesso de certezas dos tempos atuais, a solidificação de verdades estereotipadas.

Olhar é muito mais que ver. Olhar nos faz diminuir a pressa;  ver é próprio da rapidez. Ver  é um ato fisiológico decorrente do sentido da visão. Vemos porque temos olhos. Olhar é o fator biológico somado à uma intenção consciente, que gera idéias, questionamentos e conclusões.

 “ Ver é reto, olhar é sinuoso. Ver é sintético, olhar é analítico. Ver é imediato, olhar é mediado.” Márcia Tíburi

Para Didi-Huberman, a imagem é uma forma específica de se pensar o tempo histórico-social. Portanto, pensar as imagens é pensar a realidade.  Mediado em um  processo dialógico de produção de significações sobre a experiência vivida, sobre o que se vê, não apenas o que caracteriza o mundo da natureza, mas sim  de uma realidade significada, portanto criada, que constitui o mundo da cultura, da realidade, característicos de uma época e um lugar.

 Uma imagem nos convoca a pensar, nos choca e nos instiga. Carlos Drumond de Andrade escreve um poema pertinente,

Chega mais perto e contempla as palavras.(as imagens, eu acrescento)
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

 

 

Referências Bibliograficas

AUMONT,Jacques -  A imagem. São Paulo: Campinas,  1993

 DIDI-HUBERMAN, George. O que vemos, o que nos olha. Tradução Paulo Neves. São Paulo: 34 Ed., 1998.

 DUARTE JR. João-Francisco. O sentido dos sentidos: a educação (do) sensível. Curitiba: Criar, 2001

 MERLEAU-PONTY, Maurice. A fenomenologia da Percepção. Tradução: Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

TEIXEIRA COELHO, José. Moderno Pós-Moderno. São Paulo: Illuminuras, 1996.

TIBURI, Marcia. Artigo originalmente publicado pelo Jornal do Margs, edição 103 (setembro/outubro).
http://www.artenaescola.org.br/pesquise_artigos

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Para que mesmo, serve a arte?

“… fixa e tornar acessível aos mais humanos dos homens, o espetáculo de que participam sem perceber”[1]
Maurice Merleau-Ponty
Até bem pouco tempo o cérebro humano era um mistério para a Ciência. Grandes e importantes descobertas no século XX desvendaram um pouco mais da sua estrutura  e do seu funcionamento. Nosso cérebro é dividido em dois hemisférios; no hemisfério esquerdo articulado, localizam-se centros  responsáveis pelos raciocínios exatos, objetivos, digital, e também pela linguagem; no hemisfério direito desarticulado, analógico, holístico, não verbal, abriga as regiões responsáveis pelas emoções e pela nossa subjetividade.
“o ponto principal dessas descobertas … é que parece existir duas modalidades de pensamento, verbal e não-verbal, representadas separadamente nos hemisférios esquerdo e direito , respectivamente, e que o nosso sistema educacional, bem como a ciência de modo geral, tende a desprezar a forma não- verbal do intelecto.”[2]
   Por essa razão, costuma-se dizer  que o ser humano aprendeu a  utilizar apenas um terço da sua capacidade cerebral.
Sabe-se  também,  que o cérebro como qualquer músculo, precisa se exercitar. O emprego continuado fortalece as fibras nervosas que constituem as conexões entre os neurônios e libera mais neurotransmissores, substâncias químicas que cruzam as sinapses, os espaços entre eles.[3]
 O hemisfério esquerdo do cérebro é estimulado, pelos raciocínios matemáticos e pelas atividades cotidianas. Mas no hemisfério direito, certas conecções só se concretizam através da arte, tanto na criação como na fruição. Pois na experiencia estética  nossos sentidos são exigidos de maneira específica, não genérica como acontece ordinariamente. Sem o contato com a Arte existem conecções que jamais ocorrerão,e que criadas, precisarão ser fortalecidas. Esta é uma das funções da Arte; aumentar nossa capacidade cerebral.
Para alguns pensadores, a mecanização, a automação e a individualização do nosso tempo são as grandes responsáveis pelo aumento da violência, e até mesmo pelo constante aumento do uso de drogas.  Segundo Duarte Júnior, tais condições
“ que produzem  uma hipertrofia da razão em detrimento da emoção, conduzem a violência e a alienação. A violência como uma forma de fazerem os nervos vibrarem, ou a alienação  quando a vida não faz mais sentido”[4].
Em contrapartida o autor propõem uma educação sensível, pois nem só a violência, rebeldia e a gritaria são elementos que podemos utilizar para expressar nossa humanidade.
Da mesma forma, Charles Darwin afirmava que a ciência o tornou insensível, e falava das possíveis consequências disso:
  “ Perdi o gosto pela arte. Meu espírito parece ter-se convertido numa máquina de extrair leis gerais de grandes acumulações de fatos(…)A perda da receptividade para essas coisas ( as artes) é uma perda da felicidade, possivelmente prejudica não só o intelecto, como também o caráter moral, já que debilita a parte excitável da nossa natureza”.[5]

A arte serve então, para valorizar os aspectos inaproveitados da natureza, tornando o ser humano consciente de si próprio e projetando tal consciência na realidade que o cerca.
 Grupos artísticos em todo o Brasil comprovam o poder de integração social da arte, propiciando o desenvolvimento de talentos inatos e consequente  aumento da auto estima, empoderamento e resgate identitário de comunidades inteiras.
Para o filósofo grego Aristóteles a arte tinha ainda uma função curativa provocando a catarse; através da música do teatro e da poesia o espectador é incentivado a sentir fortes emoções como o medo, a piedade ou o entusiasmo, sem cair no desespero. A catarse contribuia para fortalecer o espírito de comunidade na platéia.
            Procuramos aqui, tornar visível alguma serventia da arte, correspondendo ás necessidades humanas.
“ A obtenção do prazer é um dos principais objetivos da arte. Embora o prazer estético e o prazer  artístico sejam de natureza especial, não se deve insistir na sua superioridade. Fundamentalmente trata-se de um prazer como outro qualquer. Apenas mais totalizador e de maiores ressonâncias psíquicas.”[6]
                A este prazer estético que deve abranger a totalidade da atividade humana, da´-se o nome de estesia, que vem a ser o contrário de anestesia. Precisa mais?

                                                                                                                  Sandra Simões




[1]  MERLEAU-Ponty, Maurice. o olho e o espírito. São PauloCosac & Naif,2002
 [2] EDWARDS, Betty- Desenhando com o Lado Direito do Cérebro.Rio de Janeiro: Ediouro,2012.p 11
[3] CRICK, Francis.Refletindo sobre o cérebro.Scientifc American, set de 1979, p 229,230.
[4] DUARTE Junior, J Francisco. Porque Arte-educação? Campinas: Papirus,1985.
[5] GARDNER, Howard. As Artes e o Desenvolvimento Humano.Poa: Artmed,1997.
[6] TREVISAN, Armindo. Como apreciar a arte.Porto Alegre: Editora AGE, 2003.p59.


sexta-feira, 24 de abril de 2015




Alegorias

Alegoria: I am sweet

Certos hábitos, usos ou costumes adquirem o status de culturais em determinados lugares. Em nosso Estado, por exemplo, as cores vermelho e azul identificam o torcedores do Colorado e do Grêmio. São manifestações culturais espontâneas. Outras  são convenções criadas pela mídia  que o tempo legitima porque incentivam uma atitude positiva. Por esse motivo, acredito ser pertinente enfocar um tema midiático pelo ponto de vista da Arte, neste espaço onde o tema predominante é Cultura.
Foi convencionado pela Unesco o dia 14 do mês de novembro como Dia Internacional do Combate a Diabetes, tendo como símbolo o circulo azul. Coleciono as ampolas de Insulina e as seringas com que a aplico, desde que a Diabetes entrou na minha vida. Pensei realizar trabalhos artísticos e organizar uma exposição, com esse assunto como acontece em outros países como Portugal. Diante da crescente mecanização do tempo atual, o ser humano corre o risco de cada vez mais se adaptar ao estabelecido, se colocando em uma função apática, meramente contemplativa, sem questionamentos. Ao invés de contemplar pacificamente a coisificação de meros objetos de consumo,  resignifico-os poeticamente.
 “ O alegorista não inventa imagens, ele as confisca… Em suas mãos a realidade se transforma em outra coisa.” Craig Owens.
 Utilizei os objetos que colecionei durante vários anos, nesta série,  sob o conceito de Alegoria, embricando arte e vida.
Na origem de Alegoria estão os termos gregos  allos = outro,  acrescido de agourei= fala. Assim, apresento uma “outra fala” a respeito daqueles objetos comuns a qualquer portador de Diabetes
A série I am sweet ( Eu sou doce)  compreende as Alegorias I, II e III;
                                                Alegoria I .
 Uma  mandala construída com as ampolas e seringas de Insulina.

                                                    Alegoria II.
 Xilogravuras sobre papel arroz com a Inscrição I am sweet circunscrita no circulo azul.

Alegoria III.
Uma gota sangue em aguarela inserida  em dois tijolos de vidro, simbolizando um cubo de açucar.
A função da arte é provocar, instigar, arrancar dessa “contemplação melancólica  que hipertrofia a razão em detrimento da emoção”.  Reconheço aqui uma “estética do cotidiano” o que segundo Tassinari é
“quando um objeto qualquer, na vida diária, adquire valor estético para alguém e como que salta para fora dela, comunicando o que poderia permanecer encerrado na experiência de cada um.”
 Desta forma, compartilho minhas vivências em procedimento próprio da arte contemporânea, na exposição Jogos da Memória.
A intensão é que observador se permita o exercício de de ler o que a obra de arte tem a dizer sobre a vida.

                                                                                         Sandra Simões

DUARTE JUNIOR, J Francisco. Porque arte –Educação? Campinas: Papirus,1985.

TASSINARI, Alberto. O espaço Moderno. São Paulo: Cosac & Naif,2001.
                 Angel
                         by Thiery Mudler

Agora eu era portal
Por onde orbitavam estrelas
Que cintilam em teu globo ocular.
Um anjo as colocou ali permanente
Porque quando voce me olhava
Elas se refletiam no espelho do meu corpo.
E voce me tomava pela mão
E junto navegavamos  incontinente
Pelo  infinito céu da boca.


                             Sandra Simões